Medicamento inédito pode dobrar sobrevida de pacientes com câncer de pâncreas, afirma oncologista
Estudo apresentado no maior congresso de oncologia do mundo aponta avanço histórico no tratamento da doença; especialista de Tubarão explica o impacto da descoberta
Resultados apresentados na sessão plenária do maior Congresso de Oncologia do mundo trazem expectativa para a maior evolução já registrada no tratamento do tumor de pâncreas. Oncologista de Tubarão, Dr. Kélio Silva Pinto, analisa o impacto do estudo e o que ele significa para a região Sul catarinense
Ele é considerado pelos especialistas como um dos tipos mais temidos de tumor. Não é à toa. O câncer de pâncreas é o que apresenta menor taxa de sobrevida entre todos os cânceres comuns. Por ser assintomático nas fases iniciais, normalmente é diagnosticado em fase avançada, de metástase, reduzindo assim, as opções de tratamento. Mas este cenário está mudando. A boa notícia foi dada durante o Congresso Anual da Sociedade Americana de Oncologia Clínica (ASCO), o maior evento da área no mundo, durante a Plenária, espaço reservado aos estudos considerados capazes de mudar a prática médica mundial.
Nela, foram apresentados os resultados do estudo RASolute 302, que avaliou um novo medicamento oral chamado Daraxonrasibe. Segundo o Oncologista Clínico da Ortoimagem, Dr. Kélio Silva Pinto, que atua em Tubarão e acompanha de perto a produção científica internacional da especialidade, o momento pode ser considerado um divisor de águas. "É um daqueles resultados raros na carreira de um Oncologista. O câncer de pâncreas sempre foi o nosso maior adversário, e pela primeira vez uma terapia-alvo oral superou de forma tão expressiva a quimioterapia nesta doença. A comunidade oncológica mundial recebeu esses dados como uma mudança de era", avalia o médico.
O estudo, que está na fase 3, quando chega à etapa final e mais rigorosa da pesquisa clínica, incluiu cerca de 500 pacientes de vários países, divididos entre o novo medicamento e a quimioterapia padrão. Os pacientes tratados com Daraxonrasibe, um comprimido tomado uma vez ao dia, alcançaram sobrevida global mediana de 13,2 meses, contra 6,7 meses no grupo da quimioterapia intravenosa: praticamente dobrando o resultado. O medicamento também retardou de forma significativa a progressão da doença e apresentou perfil de segurança considerado manejável, sem novos sinais de alerta. "Em Oncologia, os ganhos de poucas semanas já costumam justificar a incorporação de um tratamento. Dobrar a sobrevida em câncer de pâncreas metastático é algo que a nossa geração de oncologistas nunca tinha visto", explica o Dr. Kélio.
O Daraxonrasibe age sobre a proteína RAS, presente em sua forma modificada em mais de 90% dos casos de câncer de pâncreas. Por décadas, a RAS foi chamada pelos cientistas de alvo "não drogável", uma vez que nenhum medicamento conseguia bloqueá-la de forma eficaz. A nova molécula pertence a uma classe inédita, os inibidores multi seletivos de RAS na sua forma ativa, e o estudo demonstrou benefício em um espectro amplo de mutações, inclusive em pacientes sem mutação RAS identificada. "O que foi validado ali vai muito além do pâncreas. Provou-se que é possível atacar diretamente a RAS ativa, e essa mesma estratégia já está sendo testada em câncer de pulmão e intestino. É a abertura de uma avenida terapêutica inteira", analisa o Oncologista, que destaca ainda a publicação dos dados iniciais da molécula no New England Journal of Medicine, a mais influente revista médica do mundo.
Quando chega no Brasil?
Aqui é necessário equilíbrio, ressalta o médico. Nos Estados Unidos, a agência regulatória FDA já autorizou um programa de acesso expandido ao medicamento, e o registro definitivo está em preparação. No Brasil, o Daraxonrasibe ainda não possui registro na Anvisa, etapa obrigatória antes de qualquer disponibilização. "Meu papel como Oncologista é duplo: acompanhar de perto a ciência para que, no momento em que a incorporação acontecer, os pacientes da nossa região tenham acesso qualificado a ela e, ao mesmo tempo, ser honesto sobre o presente. Hoje, a quimioterapia segue sendo o tratamento padrão e efetivo disponível, e ninguém deve interromper ou recusar tratamento à espera de uma novidade", pondera.
O médico reforça que a mensagem mais importante para a população continua sendo a atenção aos sinais de alerta: perda de peso sem explicação, icterícia (pele e olhos amarelados), dor abdominal persistente que irradia para as costas e diabetes de surgimento recente após os 50 anos. Estes fatores merecem investigação médica. "Nenhum medicamento, por mais revolucionário, substitui o diagnóstico em tempo oportuno", conclui.
#Saúde #CâncerDePâncreas #Oncologia #Daraxonrasibe #ASCO #PesquisaCientífica #TratamentoDoCâncer #DrKélioSilvaPinto #Tubarão #SantaCatarina #Medicina
